Red Pill - Vivendo na Matrix
Quem não se lembra de uma
das cenas mais icônicas de “Matrix”, em que o personagem Morpheus (Laurem
Fishburne) oferece duas pílulas – uma vermelha
e outra azul
– à Neo (Keanu Reeves)? A pílula vermelha iria libertá-lo da ilusão em que
vivia, descobrindo a verdade sobre a realidade, enquanto a azul o manteria na
ignorância, fazendo-o retornar à sua vida “normal” na Matrix. Acontece que um
movimento de subcultura se apropriou desta metáfora para disseminar ideologias
machistas e misóginas pelo mundo inteiro. O termo “red pill” (pílula
vermelha, em inglês) é utilizado para caracterizar uma comunidade de homens héteros
que resolveram acordar para a realidade.
E qual seria esta suposta realidade?
De acordo com os red pills, as mulheres são indivíduos inferiores que
dependem tanto emocional quanto financeiramente dos homens. Além do discurso da
masculinidade tóxica – em que homens devem se comportar de modo autoritário,
dominante e frio – essa comunidade prega a ideia de que todas a mulheres são
interesseiras, manipuladoras e, portanto, não são dignas de confiança do sexo
oposto. Os red pills propagam o pensamento de que homens de valor não
devem se relacionar com mulheres, no sentindo de criar laços afetivos, posto
que são indivíduos que atrapalharão suas carreiras, sucesso e desenvolvimento
pessoal. E alguns mais radicais até evitam se casar.
Deste modo, a machosfera
(uma rede online de blogs, fóruns e influenciadores masculinos) criou a falsa concepção
de que as mulheres são pessoas subordinadas, submissas e meros objetos de
prazer que podem ser descartados a qualquer momento. Pior ainda: que podem ser
agredidas, violentadas e assassinadas em nome desta filosofia abominável.
Alguns red pills, a exemplo de Andrew Tate – uma das figuras
proeminentes do movimento, chegam a afirmar que mulheres vítimas de violência
doméstica são responsáveis pelas agressões sofridas, como se merecessem tal
punição por algo que fizeram de errado ou deixaram de fazer.
Quem me dera isso não
passasse de ficção, mas a verdade é que a vida real é tão dura e consistente
que fica difícil de visualizar a solução para um problema tão enraizado na
mentalidade masculina e na cultura de um modo geral. Na semana passada, por
exemplo, me deparei com um vídeo tão absurdo que pensei que fosse feito por IA
(inteligência artificial). Ao que tudo indica, existe uma tendência, nas redes
sociais, que está fazendo o maior sucesso entre os homens: “treinando para caso
ela diga não”.
O vídeo consiste em jovens,
entre os dezesseis e vinte e cinco anos, simulando um pedido namoro ou de
casamento. Enquanto se ajoelham, imaginam segurar uma caixinha de joias em uma
das mãos, enquanto na outra, seguram uma faca de verdade. Um dos jovens chegou
a dizer que pelo fato de estarem ajoelhados, estariam numa posição privilegiada
para atacar a parceira. Não só isso, também incentivou o uso de uma peixeira
para agredi-la. E na sequência de imagens, vi diversos jovens simulando estar
golpeando, esfaqueando e até atirando em suas parceiras.
Eu não sei quanto a você,
caro leitor(a), mas a única pílula que me deu vontade de tomar foi um Vonau.
Não tem como não sentir ânsia de vômito com algo tão repugnante, medonho e
criminoso! Para falar a verdade, eu não sei o que é pior: quem publica este
tipo de conteúdo, quem segue este tipo de perfil ou a plataforma que permite a
exposição de algo tão repulsivo. Realmente, não tem como o estômago não
embrulhar com tudo isso.
E quando nos deparamos com
perfis red pills com centenas de milhares de seguidores, percebemos que
esta mentalidade tóxica e doentia está profundamente enraizada na sociedade, a
ponto de homens acharem natural publicar este tipo de conteúdo e aderir a uma
tendência que incita a violência e o ódio contra mulheres. Tudo é feito a luz
do dia, cada um expondo seus rostos e ideias mais absurdas como se não
estivessem fazendo absolutamente NADA de errado! De uma, duas: ou estes homens
estão doentes da cabeça ou estão assistindo a filmes demais!
Inacreditável como os jovens
estão sendo ensinados e incentivados a reagir de forma violenta contra suas
parceiras, ao invés de serem ensinados a respeitar a vontade alheia e a lidar
com a frustração de uma possível rejeição. Nenhum homem é dono de uma mulher,
devendo tratá-la com dignidade, empatia e respeito que merece. No entanto, cada
vez mais, consolido o pensamento de que a maioria dos homens não ama as
mulheres, apenas as exibem como troféus de conquista e objetos de prazer.
É lamentável que a internet
dê voz à essas pessoas, porém, ao mesmo tempo é um alerta para que a sociedade
esteja atenta para alguns fatos: 1) muitos ainda acreditam que a internet é uma
zona neutra em que podem cometer as piores atrocidades e crimes sem nenhuma
consequência legal. 2) Misoginia mata! 3) A subcultura do movimento red pill
vem crescendo nos últimos anos, sendo a principal causa do aumento do número de
casos de feminicídio no Brasil. Até quando isso?
Foto: Pinterest


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