Não é a lista de Schindler, mas bem que poderia
Há poucos dias, a sociedade
se deparou com mais um caso estarrecedor de misoginia que ocorreu dentro de uma
escola particular, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Três alunos do 9º
ano do Ensino Fundamental do Colégio São Domingos criaram um grupo de WhatsApp para
elaborar uma lista de meninas “estupráveis” da turma. Algumas alunas ficaram
sabendo desta lista e entraram em contato com a coordenação para delatar os responsáveis.
Como consequência, os garotos foram suspensos temporariamente das atividades
escolares e suas famílias foram convidadas a comparecer à instituição para
debater o caso e buscar soluções ao problema.
Apesar das ações tomadas pelo
Colégio São Domingos, me pergunto se apenas uma suspensão será suficiente para punir
os estudantes e amenizar a tensão instalada naquele âmbito escolar. Afinal de
contas, se eu tivesse uma filha, sobrinha ou afilhada matriculada nesta instituição
de ensino, não ficaria tranquila em saber que ela poderia se tornar uma possível
vítima de estupro. Não só isso, que ela continuaria a conviver com pessoas que demonstraram
não ter nenhum caráter ou ética social, e que exercem uma má influência na
classe. E mais, também espelham medo nos demais colegas.
Deste modo, a grande
pergunta que fica no ar: se eles não tivessem sido descobertos, poriam em
prática essa lista? Como o colégio assegurará a integridade física dessas
meninas, caso eles continuem estudando no local? Que garantias elas terão de
que algo pior não irá acontecer? Acredito que os reinserir no mesmo ambiente
que cometeram um ato tão grave, não seria o mesmo que premiá-los? É como se eles
estivessem aproveitando férias antecipadas, esperando o retorno das aulas.
Embora o ordenamento jurídico
brasileiro não criminalize o mundo das ideias, o que leva três garotos, entre quatorze
e quinze anos, a idealizar uma lista de cunho tão perverso e misógino? A meu
ver, não é possível que eles não tenham consciência do ato que praticaram,
tanto que dois outros colegas também foram suspensos por terem enviado, no tal grupo
de WhatsApp, figurinhas de Jeffrey Epstein, um homem condenado pela Justiça norte-americana
por exploração e tráfico sexual de menores de idade.
Aliás, este fato me faz questionar
todos os meninos que, mesmo não tendo participado ativamente da criação do grupo,
estavam presentes na conversa e não fizeram nada a respeito. Eles não foram tão
somente cúmplices, mas muitos deles, provavelmente, também deveriam estar se
deleitando com a “brincadeira”. E aqui, o silêncio se torna um escudo que
protege os agentes responsáveis pela prática absurda. O que também nos leva a
pensar o tipo de conteúdo que os jovens de hoje têm consumido nas redes
sociais. Alguns especialistas já afirmaram que muitos reproduzem comportamentos
que são publicados e compartilhados na internet.
Eu sou de uma época em que a
juventude fazia lista dos meninos e meninas mais bonitas da escola (ou das
meninas mais feias da turma, o que não vem ao caso). O que antes era
considerado uma brincadeira saudável e divertida, se tornou um ato bizarro que
envolve perversidade, objetificação de corpos femininos e disseminação de violência
contra a mulher. É uma diferença gritante e assustadora. Além de estar perdendo
a inocência mais rápido, esta nova geração de jovens tem demonstrado uma forte tendência
para a crueldade e a total indiferença para com o outro.
Penso que todos merecem uma
segunda chance, porém, em razão dos inúmeros casos de estupro que vem ocorrendo
no Brasil, e levando-se em consideração o recente caso de estupro coletivo envolvendo
uma menor, a punição mais adequada seria expulsá-los para que reflitam e se
esforcem, ao máximo, para reconquistar a confiança das pessoas. Afinal, o
machismo é um problema sociocultural que ultrapassa o âmbito escolar e as
relações entre colegas. Já que foram capazes de cometer tal ato, que também sejam
homens o suficiente para lidar com as consequências e amadurecer com elas.
Se é para reproduzir
comportamentos que estes sejam mais adequados, elevados e que tragam valores
positivos para a sociedade. Os jovens de hoje precisam parar de seguir modinhas
estúpidas do TikTok e do Instagram para ter contato com conteúdo de valor e
qualidade que os ajude no processo de desenvolvimento intelectual e pessoal. Eles
precisam, por exemplo, acompanhar os clássicos, seja no cinema, na televisão ou
na literatura. Quem sabe assim, se inspiram em “A Lista de Schindler”,
produzido por Steve Spielberg, para criar uma lista de como ajudar alguém, nem
que seja para ensiná-lo como a conquistar, de forma respeitosa, o coração de uma
garota.
Foto: Montagem utilizando
imagem do Pinterest e do Canva
Fontes:


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