BASTA! – Falta dar fim às falácias do falo que ferem o feminino


 

Cinco indivíduos prepararam uma emboscada para pegar uma presa. O objetivo era saciar a fome, não apenas a do corpo, mas a do ego. Penso que nisso reside uma simbiose muito forte entre corpo e mente. Afinal, o ego é sustentado pelo que carregam entre as pernas, e esse pêndulo não é só alimentado pelo instinto, como também pela falsa ideia de que o corpo de uma mulher é território sem soberania, que pode ser penetrado quando quiser. Em outros termos, é evidente que o objetivo deles era autoafirmar a virilidade pelo meio mais antigo utilizado pelo homem: a conquista à força. Ato abominável que tem outro nome: estupro!

Creio ser crucial que falemos a respeito das centenas de milhares de casos de estupro de mulheres e de feminicídio que acontecem no Brasil e no mundo. No entanto, ao invés de continuarmos contabilizando os crescentes números, urge sobretudo falarmos do silêncio que permeia a comunidade masculina, e que torna muitos homens cúmplices da violência cometida diariamente contra as mulheres, pois há poucas coisas mais absurdas do que se calar diante de crimes tão bárbaros. Não à toa, diz o ditado: quem cala, consente.

Ao abster-se, uma grande parcela de homens se isenta da responsabilidade social de denunciar constrangimentos ilegais, abusos sexuais e homicídios que vêm ocorrendo numa velocidade vertiginosa, seja em razão do desrespeito às vítimas em virtude do seu gênero ou do sentimento de aversão às mulheres. Nestas circunstâncias, o silêncio se torna conivente com tais crimes, ajudando a acobertar agressores e a minimizar comportamentos negativos e altamente violentos. Pior: ajudando a perpetuar a mentalidade de que os homens podem tudo, pois jamais serão penalizados por seus atos atrozes.

A violência chegou num patamar tão alarmante que não é mais possível virar o rosto, fechar os olhos e fingir que não vê. Não há, a essa altura, como ignorar um problema sociocultural que não diz respeito somente às mulheres, mas a todos que compõem a sociedade. As vítimas são mães, tias, irmãs, amigas, colegas de trabalho, de modo que qualquer mulher que conhecemos ou não pode se tornar alvo das barbaridades cometidas não só nas ruas, mas dentro dos lares, hospitais, bares, escritórios etc. Razão pela qual os homens de bem não devem esperar de braços cruzados que seus entes queridos se incluam entre os números das estatísticas.

Ao mesmo tempo, é evidente que não basta unicamente educar seus filhos para que assumam uma postura diferente dos demais. Os homens têm de inibir comportamentos inadequados, censurar comentários preconceituosos e sinalizar quando um outro homem – seja um vizinho, um colega de trabalho ou um amigo – ultrapassar limites toleráveis. Por último – e não menos importante –, os homens precisam participar ativamente do diálogo e das pautas das mulheres para somar forças no combate ao machismo e à misoginia. Do contrário, o silêncio estarrecedor continuará a beneficiar agressores e a punir vítimas.

Infelizmente, em pleno século XXI, as mulheres ainda têm de lidar com uma questão complexa, profunda e de difícil solução: a mentalidade machista que objetifica corpos femininos, fazendo com que os homens ainda acreditem que são os donos do mundo, os donos de suas parceiras e até ex-companheiras, como se pudessem fazer o que quiserem com seus corpos, a bel-prazer. Homens prepotentes e arrogantes que não sabem lidar com a negativa ou a rejeição de uma mulher, utilizando-se do pênis como instrumento de poder, dominação e opressão sobre o sexo feminino.

Acontece que nós estamos saturadas e exaustas de sermos discriminadas, violentadas e assassinadas pelo simples fato de sermos mulheres! Queremos a liberdade de existir e coexistir num mundo em que as diferenças sejam respeitadas e a nossa dignidade também! Já não podemos sair às ruas sem o temor de sermos estupradas e mortas. Já não podemos mais nem mesmo ouvir os noticiários, com receio de escutar a ocorrência de mais um novo caso de estupro ou de feminicídio. Trata-se de um quadro atual lastimável e inaceitável. E uma pergunta fica no ar: quantas de nós ainda terão que morrer para que a sociedade, como um todo, queira de fato agir?

Agora, é mais importante do que nunca que a sociedade repreenda com mais rigor e rigidez crimes como o de estupro, principalmente nos casos de estupro coletivo, aplicando leis severas como a da castração química ou da catalogação de ficha pública de homens que foram condenados por pedofilia ou estupro de menores etc. Vale frisar que não basta a aplicação da lei penal, tem que haver a mudança de mentalidade por meio da educação, adoção de novos costumes, inserção de leis afirmativas mais eficientes e de políticas de reparação para com as mulheres. Afinal, não há como apagar tanto rastro de dor e sofrimento, mas talvez haja como amenizar as sequelas que marcam corpos femininos.

A garota de Copacabana, por exemplo, teve suas nádegas, costas e sexo machucados por cinco animais irracionais que se dizem homens e acreditam que a grandeza de um homem é medida pelo tamanho do pênis e de uma mera gozada. Tamanha falácia! Uma ignorância que não deve ser subestimada, uma vez que prejudica a vida de inúmeras mulheres, condenadas a serem mortas-vivas, quando não mortas de verdade.

Se as coisas continuarem como estão, me parece que continuaremos sendo enterradas em valas tão profundas e frias quanto a ideologia machista que nos mata. E isso me leva a perguntar: cadê os homens de bem para se indignarem e expressarem que são solidários com a dor alheia? Gritem junto com a gente, pois a desesperança, a falta de credibilidade e a insegurança enfraquecem a nossa voz. Precisamos somar forças para denunciar a violência e o ódio que têm matado muitas mulheres ao redor do mundo. Precisamos denunciar homens que são violentos e misóginos para que estes sejam julgados e condenados por seus atos. As nossas vidas também importam, sabiam? Queremos desfrutar a liberdade de ser mulher e, tal qual os homens, gozar livremente nossas vidas.


Foto: @javirroyo

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